Livro ::: Saga Vol.1. de Brian K. Vaughan

Okay. Vamos falar sobre uma graphic novel que em cerca de 140 páginas consegue uma densidade e maturidade invejáveis a muitos romances.

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Saga – Vol. 1 – é o primeiro de cinco volumes publicados até à data que retratam um universo futurista e espacial onde as raças do planeta Landfall e do seu satélite lunar Wreath têm vindo a arrastar vários planetas para uma guerra infindável. Neste cenário, é-nos apresentado o casal; Alana, uma Landfallian, conhecidos pelas suas asas pequenas e Marko, um Wreathiano, humanóide com cornos que fazem lembrar o tronco de um minotauro, durante o parto da sua recém-nascida Hazel.

Claro está que estes “Romeu e Julieta” vão deparar-se com um sem número de problemas por viverem um amor quase que proibido e, ainda para mais, por terem cruzado, através da filha Hazel, duas raças tão antitéticas. É com esta premissa que acompanhamos a fuga do casal ao longo deste primeiro volume.

Os desenhos e as descrições culturais das personagens são fantásticos. Em poucas páginas, absorvemos uma densidade narrativa fortíssima e, curiosamente, muito humana. Os sentimentos e ligações afectivas são muito humanóides mas não provocam estranheza, nem nos retiram de contexto durante a leitura. Mas o traço, a escolha e combinações de várias cores, conferem uma energia específica a cada personagem. E esse cuidado no desenho e cor contribuí para o enriquecimento narrativo.

Esta não é uma graphic novel para crianças. Descreve situações e histórias difíceis, umas até bem terríveis, e consegue afirmar-se plena de maturidade, apesar de se desenrolar numa universo de ficção especulativa. Houve momentos na leitura em que quase esquecia que estava no domínio da fantasia. Há humanidade nas personagens, mas o q.b. para nos fazer apaixonar pelo feitio. Mal posso esperar para ler o segundo volume!

 

 

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Séries ::: Marvel’s Jessica Jones (6/10)

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Desde miúdo, sou fã assumido do universo Marvel. Muito mais que o da DC Comics, mas isso são outros quinhentos.

Eu vi a série Daredevil em Agosto, e fui surpreendido pela positiva: o receio de encontrar uma produção menos elaborada, por se tratar de um série, foi completamente suplantado pelo espanto de ter visto um dos melhores produtos de ficção audiovisual do ano. A parceria entre a Marvel e a Netflix dera frutos e fazia-me todo o sentido continuarem com o franchising da coisa.

Não conhecia a personagem de Jessica Jones. Sei que foi criada dentro do universo Marvel de ficção para adultos, com histórias e personagens bem mais elaboradas psicologicamente. Li algumas coisas, a sua ligação com os Vingadores, a suas disputas com o homem-púrpura, as origens comuns com o Peter Parker mas em termos narrativos optei por ficar “às cegas” para a experiência ser mais imersiva.

Na minha opinião a série começa muito bem; tem um primeiro episódio muito forte e que nos põe logo em sentido. Contudo, as expectativas não foram encontradas. A narrativa estende-se demasiado sobre o tempo, as evoluções dos personagens, apesar de interessantes, têm uma cadência desinteressante. Confesso que os três últimos episódios foram frustrantes e custaram mesmo muito a ver. O final, desiludiu. Poder-se-ia ter feito tanta coisa interessante. Mas as personagens (e actores) são muito cativantes e é uma forma de ver o universo Marvel mais adulto e maduro. A própria Jessica Jones é uma heroína(?) muito atípica, com laivos de bipolaridade e mau caracter muito cómicos. E não podemos deixar passar o facto de estarmos num universo muito feminino; no sentido fílmico, na forma e edição adoptadas para contar a história, mas também pelos personagens de topo da série serem mulheres e onde o poder não exclusivamente patriarcal.

 

Livro ::: Brave New World, Aldous Huxley (8/10)

Ora antes de ser operado, comecei a preparar uma boa lista de livros para por a minha leitura em dia. Sempre tive a pancada de livros de ficção científica ou literatura fantástica, e como são essas as histórias que me prendem, procurei entre família e amigos alguns títulos que ainda não tivesse lido.

Surpresa das surpresas, a S, que partilha comigo o apartamento, tinha na sua biblioteca um clássico que já tinha ouvido falar, mas que conhecia pouco sobre ele. Depois de lhe perguntar se ela tinha algum livro de ficção científica, ou de distopias, ela prontamente me passou o Brave New World, do Aldous Huxley.

Antes  de o ler, como o título me era bastante familiar, fiz alguma pesquisa. Escrito em 1931 e publicado em 1932, é considerado um dos primeiros livros sobre distopias, ou seja, sobre realidades futuras negativas ou deformadas. A origem do termo vem de utopia, um lugar ou realidade inatingível; uma distopia é um lugar (topos) mau ou disfuncional (dys).

Não estamos a falar de romance guiado pelo conflito. A narrativa é muito simples, directa e evolui a passo lento. Contudo, são as personagens (e a realidade onde a história se desenrola é uma das mais fortes) que nos guiam. No ano de A.F. 632, um registo de passagem do tempo que começa a partir da invenção do primeiro modelo de carros da Ford, somos introduzidos a uma humanidade que não se reproduz, é criada dentro de tubos de ensaio em laboratórios; é educada pela repetição de chavões através de hypnopaedia (aprendizagem durante o sono) , desprovida de ligações familiares e afectivas e dividida em classes/castas. O conceito de produção de massa do fordismo é aplicado a todo o tecido social; as várias classes servem os vários propósitos laborais, sendo que as castas mais baixas servem, como expectável, as mais altas.

Não querendo entrar em sumarização ou resumo da narrativa, importa relevar que o interessante do livro são as personagens, a forma como elas se relacionam dentro deste universo de produção em massa. Também interessante, é a forma como a sociedade se consegue manter nesta ignorância: através de uma droga aprovada pelo estado, a soma. Com este estupfaciente, as pessoas perdem o espirito naturalmente inquisidor do ser humano, perdem a necessidade de ligações emocionais e deixam-se, ébrias, simplesmente existir sem preocupações.

Em suma, ou soma se ainda estivermos com a cabeça dentro do universo de Huxley, estamos perante um romance que apresenta uma metáfora interessante: a sociedade que nos é apresentada é uma possível solução dentro do equilíbrio entre a verdade e a felicidade. Isto é, a sociedade e respectiva organização assentam na premissa de se viver feliz, mas ignorante do que nos rodeia. A verdade é preterida pela ilusão e sensação de bem-estar, livre de sofrimento e problemas. O actual mundo ocidental rege-se pelo contrário: a crueza da verdade, de facto, impede-nos de sermos verdadeiramente felizes. Será? Pelas questões que levanta, pela originalidade e relevância do universo criado, dou 8 a este livro!

 

Brave New World
Capa do Brave New World, de Aldous Huxley