Ida à BDMania!

Hoje fui à Baixa-Chiado beber um café com um amigo e aproveitei e passei na BD Mania. Perdi a cabeça e comprei duas graphic novels: Saga, Vol 1 (que já queria comprar há algum tempo) e Suiciders do Lee Bermejo.

Já tinha na minha wishlist da Amazon o primeiro volume da série Saga. Foi publicado em 2012 e, em Setembro deste ano, foi publicado o quinto volume da série. Li boas críticas e algures na internet encontrei-o listado como uma das melhores graphic novels de 2015. Quando vi as primeiras páginas (ainda na opção de preview da Amazon) fiquei imediatamente interessado: o estilo fez-me lembrar o Y: The Last Man, uma série que acompanhei em parte há alguns anos e gostei bastante. Não foi coincidência pois vim a descobrir que fora escrita pelo mesmo autor: Brian K. Vaughan.

saga.png

Li o primeiro volume em pouco mais de uma hora. A narrativa é super cativante, num mundo futurista; uma das críticas que li falava numa mistura entre Star Wars e Game Of Thrones. Acho que não tem nada a ver em termos narrativos, mas o meandro de personagens é igualmente diverso e interessante. Fiquei agarradíssimo à história e estou já salivar pelos próximos quatro volumes entretanto publicados! Algures durante a semana deixo aqui uma review à BD.

Suiciders_Vol_1_1.jpg

A outra obra que comprei, e desta vez o primeiro volume (compilação das seis primeiras histórias até agora publicadas) da série Suiciders do Lee Bremejo. Um ilustrador/designer meu amigo, e com quem por vezes partilho a cantina de almoço, recomendou-me a obra deste senhor e apenas sugeriu que o “googlasse”. Fiquei siderado com a arte do ilustrador e super interessado nas suas intervenções em distintos universos narrativos: desde Watchmen, a séries sobre personagens bem conhecidas como Joker e Lex Luthor. Já li algumas páginas, estou apaixonado pela arte final e pelo mundo distópico aonde decorre a narrativa, e assim que o ler deixo aqui a minha crítica!

Anúncios

Séries ::: Marvel’s Jessica Jones (6/10)

jessica-jones-netflix-poster.jpg

Desde miúdo, sou fã assumido do universo Marvel. Muito mais que o da DC Comics, mas isso são outros quinhentos.

Eu vi a série Daredevil em Agosto, e fui surpreendido pela positiva: o receio de encontrar uma produção menos elaborada, por se tratar de um série, foi completamente suplantado pelo espanto de ter visto um dos melhores produtos de ficção audiovisual do ano. A parceria entre a Marvel e a Netflix dera frutos e fazia-me todo o sentido continuarem com o franchising da coisa.

Não conhecia a personagem de Jessica Jones. Sei que foi criada dentro do universo Marvel de ficção para adultos, com histórias e personagens bem mais elaboradas psicologicamente. Li algumas coisas, a sua ligação com os Vingadores, a suas disputas com o homem-púrpura, as origens comuns com o Peter Parker mas em termos narrativos optei por ficar “às cegas” para a experiência ser mais imersiva.

Na minha opinião a série começa muito bem; tem um primeiro episódio muito forte e que nos põe logo em sentido. Contudo, as expectativas não foram encontradas. A narrativa estende-se demasiado sobre o tempo, as evoluções dos personagens, apesar de interessantes, têm uma cadência desinteressante. Confesso que os três últimos episódios foram frustrantes e custaram mesmo muito a ver. O final, desiludiu. Poder-se-ia ter feito tanta coisa interessante. Mas as personagens (e actores) são muito cativantes e é uma forma de ver o universo Marvel mais adulto e maduro. A própria Jessica Jones é uma heroína(?) muito atípica, com laivos de bipolaridade e mau caracter muito cómicos. E não podemos deixar passar o facto de estarmos num universo muito feminino; no sentido fílmico, na forma e edição adoptadas para contar a história, mas também pelos personagens de topo da série serem mulheres e onde o poder não exclusivamente patriarcal.

 

Quando boas iniciativas permitem colher frutos ainda melhores.

Na passada Quinta-feira fui, tal como tinha aqui anunciado, aproveitei trabalhar no Saldanha e dei um salto até à livraria Almedina para a apresentação de uma banda desenhada de Fernando Pessoa.

Quando lá cheguei, vi algumas crianças acompanhadas por graúdos e, após o primeiro vislumbre do livro de banda desenhada e respectivos traços, pensei que se tratava de um conteúdo infantil e que tinha ido ao engano. Quase que me fui embora. Mas ainda bem que fiquei para os primeiros minutos da apresentação feita por Rui Tavares – historiador, escritor, blogger e político – e Ricardo Belo de Morais, um pessoano ligado há mais de 30 anos à obra do poeta e parte integrante da equipa de museologia e património da Casa Fernando Pessoa.

O que ao início me parece um traço infantil ou, nas palavras de Rui Tavares, pueril, revelou ser muito mais maduro, complexo e, essencialmente, fidedigno, à vida e obra de Pessoa. Não houve uma preocupação de ofuscar a obra com a arte e desenho dos autores; pelo contrário, sem se deixarem intimidar pelo universo do poeta, Manuel Moreira e Catarina Verdier conseguiram criar uma obra singular que reflecte muito bem o percurso de vida do Pessoa, pontuando essas vivências com poemas escritos na altura pelos heterónimos que foi criando à medida do crescimento. Ainda não o acabei, mas tenciono escrever aqui no blog uma análise.

No entanto, gostava de aprofundar um pouco mais a presença do Rui Tavares na apresentação do livro. Penso que em 2010, no seu blog, Rui Tavares anunciou que gostaria de atribuir parte do seu ordenado de eurodeputado em forma de bolsa. Para isso criou um concurso onde várias pessoas pudessem enviar as suas propostas e projectos. Três dos quatro Gato Fedorento (Ricardo Araújo Pereira, Miguel Góis e José Diogo Quintela) também acharam a ideia interessante e juntaram-se à iniciativa. Assim, puderam atribuir 7 bolsas com duração aproximada de um ano. Este tipo de altruísmo, ainda para mais numa altura em que a crise se encontrava agudizada em Portugal, não me passou despercebido e na altura achei que, infelizmente, haviam poucas iniciativas destas.

Os autores do banda desenhada das Aventuras de Fernando Pessoa – Escritor Universal foram um dos 7 projectos apoiados e, graças a este apoio, o que era uma ideia flutuante no éter, concretizou-se. Convém relevar que este livro estava já em curso desde 2004, mas a bolsa permitiu uma maior entrega e durante mais tempo a um projecto trabalhoso e artesanal (desenhado na íntegra à mão, sem recurso a tecnologia, onde inclusivamente a tipografia é manual, ou seja, desenhada).

Livro ::: Em Teu Ventro, José Luís Peixoto (8/10)

emteuventre
Capa do livro “Em Teu Ventre”, de José Luís Peixoto

Acho que será sempre complicado fazer uma análise a uma obra do José Luís Peixoto (JLP). É o meu escritor preferido e tenho acompanhado a sua obra desde 2003, quando li pela primeira vez “Uma Casa na Escuridão”. Com uma escrita única, em cenários como só Peixoto sabe descrever, onde a crueza de uma portugalidade pode ser encontrada nos personagens.

Já li a obra do autor na íntegra. O Livro, que narra partes da história da emigração portuguesa, e este Em Teu Ventre são obras que partem de acontecimentos históricos, ficcionados por JLP. Nota-se a pesquisa; mas uma pesquisa cuidada. Ouvi o autor dizer, em entrevista na RTP3 (desculpem, não encontrei o link!), que a pesquisa é uma coisa perigosa na escrita de ficção. Um autor pode perder-se nessa pesquisa e nunca encontrar (ou pior ainda, nem se aperceber de) o fio à meada da história que quer contar. Mas essa pesquisa não se sente como forçada; aliás, o tema é delicado, pelo caracter religioso e mesmo assim JLP foge a quaisquer questões de fé e foca-se nas relações entre personagens. Daí fazer sentido quando o ouvi dizer, na mesma entrevista, que este livro é sobre mães e filhas. Não tanto sobre as aparições em Fátima que, aliás, nunca são descritas no livro. O foco está na reacção das famílias dos três pastorinhos.

 

Adorei o livro. Para começar, é do conhecimento geral que existiram três pastorinhos que, de alguma forma, interagiram com a nossa senhora. Mas é um conhecimento superficial porque, no imaginário colectivo, são poucas as pessoas que conhecem a fundo esta questão. E JLP consegue, na sua prosa, emergir o leitor no universo das pessoas em 1917, como eram as casas nessa altura, a postura do senhor prior, os vizinhos, os curiosos. É um livro pequeno que se lê num ápice!