Quando boas iniciativas permitem colher frutos ainda melhores.

Na passada Quinta-feira fui, tal como tinha aqui anunciado, aproveitei trabalhar no Saldanha e dei um salto até à livraria Almedina para a apresentação de uma banda desenhada de Fernando Pessoa.

Quando lá cheguei, vi algumas crianças acompanhadas por graúdos e, após o primeiro vislumbre do livro de banda desenhada e respectivos traços, pensei que se tratava de um conteúdo infantil e que tinha ido ao engano. Quase que me fui embora. Mas ainda bem que fiquei para os primeiros minutos da apresentação feita por Rui Tavares – historiador, escritor, blogger e político – e Ricardo Belo de Morais, um pessoano ligado há mais de 30 anos à obra do poeta e parte integrante da equipa de museologia e património da Casa Fernando Pessoa.

O que ao início me parece um traço infantil ou, nas palavras de Rui Tavares, pueril, revelou ser muito mais maduro, complexo e, essencialmente, fidedigno, à vida e obra de Pessoa. Não houve uma preocupação de ofuscar a obra com a arte e desenho dos autores; pelo contrário, sem se deixarem intimidar pelo universo do poeta, Manuel Moreira e Catarina Verdier conseguiram criar uma obra singular que reflecte muito bem o percurso de vida do Pessoa, pontuando essas vivências com poemas escritos na altura pelos heterónimos que foi criando à medida do crescimento. Ainda não o acabei, mas tenciono escrever aqui no blog uma análise.

No entanto, gostava de aprofundar um pouco mais a presença do Rui Tavares na apresentação do livro. Penso que em 2010, no seu blog, Rui Tavares anunciou que gostaria de atribuir parte do seu ordenado de eurodeputado em forma de bolsa. Para isso criou um concurso onde várias pessoas pudessem enviar as suas propostas e projectos. Três dos quatro Gato Fedorento (Ricardo Araújo Pereira, Miguel Góis e José Diogo Quintela) também acharam a ideia interessante e juntaram-se à iniciativa. Assim, puderam atribuir 7 bolsas com duração aproximada de um ano. Este tipo de altruísmo, ainda para mais numa altura em que a crise se encontrava agudizada em Portugal, não me passou despercebido e na altura achei que, infelizmente, haviam poucas iniciativas destas.

Os autores do banda desenhada das Aventuras de Fernando Pessoa – Escritor Universal foram um dos 7 projectos apoiados e, graças a este apoio, o que era uma ideia flutuante no éter, concretizou-se. Convém relevar que este livro estava já em curso desde 2004, mas a bolsa permitiu uma maior entrega e durante mais tempo a um projecto trabalhoso e artesanal (desenhado na íntegra à mão, sem recurso a tecnologia, onde inclusivamente a tipografia é manual, ou seja, desenhada).

Livro ::: Em Teu Ventro, José Luís Peixoto (8/10)

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Capa do livro “Em Teu Ventre”, de José Luís Peixoto

Acho que será sempre complicado fazer uma análise a uma obra do José Luís Peixoto (JLP). É o meu escritor preferido e tenho acompanhado a sua obra desde 2003, quando li pela primeira vez “Uma Casa na Escuridão”. Com uma escrita única, em cenários como só Peixoto sabe descrever, onde a crueza de uma portugalidade pode ser encontrada nos personagens.

Já li a obra do autor na íntegra. O Livro, que narra partes da história da emigração portuguesa, e este Em Teu Ventre são obras que partem de acontecimentos históricos, ficcionados por JLP. Nota-se a pesquisa; mas uma pesquisa cuidada. Ouvi o autor dizer, em entrevista na RTP3 (desculpem, não encontrei o link!), que a pesquisa é uma coisa perigosa na escrita de ficção. Um autor pode perder-se nessa pesquisa e nunca encontrar (ou pior ainda, nem se aperceber de) o fio à meada da história que quer contar. Mas essa pesquisa não se sente como forçada; aliás, o tema é delicado, pelo caracter religioso e mesmo assim JLP foge a quaisquer questões de fé e foca-se nas relações entre personagens. Daí fazer sentido quando o ouvi dizer, na mesma entrevista, que este livro é sobre mães e filhas. Não tanto sobre as aparições em Fátima que, aliás, nunca são descritas no livro. O foco está na reacção das famílias dos três pastorinhos.

 

Adorei o livro. Para começar, é do conhecimento geral que existiram três pastorinhos que, de alguma forma, interagiram com a nossa senhora. Mas é um conhecimento superficial porque, no imaginário colectivo, são poucas as pessoas que conhecem a fundo esta questão. E JLP consegue, na sua prosa, emergir o leitor no universo das pessoas em 1917, como eram as casas nessa altura, a postura do senhor prior, os vizinhos, os curiosos. É um livro pequeno que se lê num ápice!

Livros que nos mudam

Já me aconteceu mais que uma vez.

Li o Uma Casa na Escuridão, do José Luís Peixoto no início do primeiro namoro arrebatador. E fez-me ver o Amor com outros olhos.

Quando a minha mãe morreu, li o Intermitências da Morte, do José Saramago. E ri-me às gargalhadas com uma maneira única de olhar a morte.

O meu melhor amigo ofereceu-me o Sidarta, de Herman Hesse. E comecei a ver a vida como a simplicidade que ela é quando o Homem não a tenta enquadrar num qualquer esquema mental ou ideológico.

Somos o produto daquilo que vivemos e, como tal, também somos aquilo que lemos.

 

Apresentação ::: As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal

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Só soube há pouco desta apresentação de uma banda desenhada sobre Fernando Pessoa. Consta que é uma aventura sobre a vida do escritor português e é apresentado amanhã na livraria Almedina do Saldanha, às 18:30.