Citizen Four ::: A questão Edward Snowden

Citizen four.

Não sei como é que me passou para lado, ainda para mais vencedor do Óscar de Melhor Documentário deste ano.

Este estilo de documentário não me costuma atrair muito. É uma corrente cinematográfica americana, onde os documentários assumem posições muito definidas na interpretação dos factos. Como quem diz, assumem claramente uma posição. Política, social, económica, não interessa. Mas tenho que admitir que está tremendamente bem filmado, segue uma história verídica e actual, cujo impacto nas nossas vidas ainda está longe de ser conhecido na totalidade. A questão Edward Snowden invadiu o nosso mundo; infelizmente, sob uma leitura norte-americana que diz tratar-se de um jovem traidor e terrorista que expôs informações sensíveis sobre agências governamentais de forma irresponsável, pondo em perigo a segurança nacional dos E.U.A. E esta foi a versão que os nossos meios de comunicação nos venderam. Mas este tema está longe de ser uma simples questão entre o bem e o mal. Haverão males necessários para fazer prevalecer o bem? E como tomamos estas decisões? Questões de fundo que carecem respostas por parte das entidades envolvidas.

A minha opinião sobre este tema ainda está muito dividida. Sou um acérrimo defensor da liberdade de pensamento, mesmo que condene muitas das formas de pensar vigentes . E sou, acima de tudo, defensor da liberdade de expressão – para mim, o órgão soberano e regente de qualquer democracia que se preze como sã.

No entanto, sempre me regi pela máxima de que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros.

É um facto de que muitos – senão todos – os documentos extraviados por Edward Snowden contêm informações sensíveis: acções, estratégias, tácticas, esquemas e estratagemas da NSA que podem por em causa a segurança dos Estados Unidos. Aqui consigo perceber o perigo que a acção de Snowden acarretou. O problema é que muita dessa informação sensível também dizia respeito à segurança e privacidade dos cidadãos americanos (e como mais tarde viemos a saber, cidadãos de todo o mundo). Ou seja, preteriu-se a privacidade dos cidadãos americanos em prol de uma estratégia para a segurança nacional. É certo que o PRISM e outros programas de espionagem digital podem ser muito úteis numa situação de crise, mas só deve ser activado em situações extremas e não numa base diária de operações. Porque é que a privacidade importa? Fica aqui o ponto de vista do Gleen Greenwald numa TedTalk.

É aqui que acabo por concordar com a abordagem do Ed. E reconhecer-lhe uma coragem imensurável. Foi sincero, e perante factos assustadores – pressões, tentativas de o silenciar, retaliações aos mais próximos e outras práticas comuns que devem ser combatidos a todo o custo – assumiu uma posição. Deu a cara e permitiu acesso a jornalistas ao material que ele conseguira usurpar. Sim, Ed cometeu um crime de traição perante a lei americana. Sob um enorme risco de vida, para si, para os seus, para os jornalistas; porque representam conhecimento de uma realidade que tenta ser escondida a toda a hora. Mas a razão pela qual o cometeu, e os resultados – o conhecimento geral do controlo de informação por parte dos americano – é nobre. E sim, devemos reportar as invasões às nossas liberdades. Principalmente por parte de um governo, mesmo que isso implique a divulgação de documentos sensíveis. O modus operandi de qualquer nação deve servir o seu povo. Nunca servir-se dele, sob que pretexto seja; aconteceu inúmeras vezes na nossa história e em momento algum foi benéfico.

Voltando ao filme, somos apresentados logo de início ao universo encriptado de Snowden. Mensagens, protocolos, encontros repletos de artimanhas. Uma realizadora e um jornalista norte-americanos conseguem a entrevista exclusiva com Edward Snowden durante vários dias em Hong Kong. Conjuntamente entrevistam Snowden e aprofundam as suas dúvidas sobre os materiais fornecidos, e começam rapidamente a redigir e publicar em poucas horas as primeiras notícias. Chegaram com estrondo e proliferaram nos nossos meios de comunicação. Rapidamente a história se focou na pessoa e não nas informações divulgadas. Sim, houve bastante agitação política e social com os documentos libertados. Mas forças conjuntas conseguiram impelir a atenção dos média para Snowden e não nas notícias e informações que ele libertara. Nada que Snowden não estivesse à espera como poderemos ver durante o documentário.

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