Vegetarianismo: um radicalismo?

Vegetarianismo Vs. Radicalismo?
Vegetarianismo Vs. Radicalismo?

Hoje – infelizmente – vi um vídeo chocante de um cavalo a ser esquartejado vivo numa arena de touros na Colômbia.

Este vídeo relembrou o meu velho desprezo para com as actividades tauromáquicas e as infindáveis discussões que já tive com os seus adeptos. Mas fez também nascer um debate interessante. Indignado pelo sofrimento do animal, exprimi a minha incompreensão pela desvalorização da vida do cavalo, dada a selvajaria a que assisti frame por frame. Fez-me questionar um amigo sobre o especismo, intrínseco na nossa sociedade, em que nos julgamos superiores e podemos subjugar os animais a nosso bel prazer. Dei por mim a perguntar-lhe, olhos nos olhos, se ele considerava que o valor de uma vida animal merecia menos respeito que o valor da vida humana. Ele prontamente respondeu-me que sim, que a vida humana tem sempre mais valor. Eu fiquei estarrecido, em silêncio de reprovação, até que ele me coloca a seguinte questão: se numa estrada estiver um animal e um ser humano, durante um despiste, eu tivesse que atropelar um dos dois, qual escolheria?

Apesar de não ter gostado da minha resposta interior – aquela intuição que nos guia – tive que me conformar e responder que atropelaria um animal em detrimento de um ser humano. E aqui nasce o debate do radicalismo dos vegetarianos e vegan’s que adoptam um estilo de vida alternativo (mais saudável, ou não, não interessa) de modo a combater a desigualdade entre as espécies. E não comem carne porque não querem provocar sofrimento animal ou a sua exploração. E seguem num activismo extremo alertando as pessoas para as implicações do consumo de carne, de lacticínios, de peles e pêlo, etc. Com o qual eu concordo, mas não é essa a questão. Não devemos mudar os nossos hábitos por questões de ideologia e depois adoptar estilos de vida alternativos – como o vegetarianismo e o veganismo. Deveria ser o contrário. O argumento não deve ser “deixei de comer carne e lacticínios para não suportar a indústria da morte e exploração”. Porque é errado. Porque há consumo regrado e desprovido de crueldade em zonas do nosso globo. Falo de mortes respeitosas, limpas e conscientes. Porque há populações que dependem da carne animal para uma alimentação equilibrada; algumas dependem inclusivamente da carne para sobreviver. Não os podemos julgar ou tentar reeducar quando não existem alternativas.

Mas quando falamos de populações europeias, com consumo e exploração desregrados, e cruéis, de animais também não podemos pensar que os comedores de carne são apenas pessoas desinformadas. São produtos de uma educação social milenar cujos valores são impossíveis de rebater num tempo de vida útil. Devemos, contudo, alertar para as condições em que os animais são tratados. Como são maltratados, mortos e esquartejados para serem postos numa prateleira. Aí, perante essa desumanização do processo (sem remorsos) temos que reflectir. Porque posso achar que uma vida humana vale mais que uma vida de um animal. Mas isso não me dá o direito de os maltratar, subjugar, estropiar, violentar, etc. E não estando num carro acidentado e perante uma escolha imediata, devo reflectir sobre o processo, como um todo, que levou a um bife, ou um ovo ou um iogurte, estar no meu prato. Aqui nasce a consciencialização de que o consumo de carne pode ser nefasto para a nossa saúde; que a exploração animal leva a uma exploração exaustiva dos solos e rios e que a longo prazo não é de todo sustentável; que não temos o direito de prender, injectar químicos e manipular geneticamente os animais, entre outras atrocidades do género.

Eu ainda como carne e consumo alguns lacticínios. Tenho reduzido drasticamente e, como aqui já disse, quero a longo prazo adoptar uma dieta desprovida de carne. Mas não terá a ver com a exploração animal. Nem com as suas implicações no nosso meio ambiente. Quero, preciso e sinto que deva ter a haver com compaixão; consciência. Porque seria incapaz de matar um animal, esventrá-lo e dele tirar maravilhosos bifes; desde que tivesse outra alternativa, claro está. Se estivesse numa ilha repleta de vegetais e frutas, certamente nunca iria tentar matar qualquer tipo de animal para me alimentar. Contudo, se nessa ilha existissem apenas animais, a minha alternativa seria morrer à fome. Ou então compreender que teria que matar o animal para a minha sobrevivência. Seria uma morte consciente, o mais rápida possível, com o menor sofrimento possível. Mas seria uma morte de qualquer das maneiras. Mas necessária. Porque em última análise, se optasse por não matar animais e morrer à fome, estaria a colocar a vida de um animal como mais valiosa que a de um ser humano – eu. E aqui, voltando à situação do carro, a minha resposta interior seria igual: uma vida humana terá sempre mais valor que a de um animal. O problema, são os excessos.

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6 thoughts on “Vegetarianismo: um radicalismo?”

  1. Sou contra touradas e outras tradições que devem existir por aí que façam os animais sofrer, nem de circos (com animais) gosto porque de facto a maioria dos animais são muito mal tratados.
    Mas, no que toca a comer carne, embora eu não goste propriamente de carne e coma apenas três/quatro vezes por mês por descargo de consciência, acho que é algo que faz parte da nossa natureza/instinto. E sei que os animais de matadouro não têm a melhor vida, mas na hora da morte deles, hoje em dia, já há imensas ”opções” menos dolorosas para eles.
    Admiro quem tem essa preocupação, mas acho que nos temos de alimentar, e há pessoas que têm mais necessidade de comer carne do que outras. Reduzir, sim, sobreviveríamos igualmente bem a comer menos vezes animais, mas é preciso um esforço tremendo.
    Beijocas*

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    1. O grande problema é que essas opções raramente são praticadas. Mas compreendo o teu ponto de vista, não sou de radicalismos e eu também como carne de vez em quando. Contudo, é preciso que o consumo seja consciente. Já viste o documentário cowspiracy? É um must e anda a dar que falar!

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      1. Sim, infelizmente, não são sempre aplicadas, antes pelo contrário. Quem sabe nesse ponto as coisas sejam doutra forma no futuro.
        Ainda não vi, vou procurar para ver 😀
        Infelizmente, tratamos muito mal os animais em muitos aspectos, por exemplo, no que toca a cosméticos…

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      2. Vê mesmo! Não tem violência gratuita nem aposta em mostrar animais em sofrimento. Sim, a indústria de cosméticos é toda uma outra conversa dentro deste tema! Sobre isso recomendo o “Libertação Animal” do Peter Singer, grande livro.

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  2. Exacto, acho que ninguém tem essa noção. Nem eu, ate ter visto o documentário e ter pesquisado um pouco sobre esses mesmos números. Aliás, fui vegetariano há coisa de 10 anos e deixei esse regime alimentar por preguiça. Nunca mais pensei no assunto até ter visto o documentário. Espero que tenhas gostado e que te tenha feito reflectir sobre o assunto ehehehe bjs

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